Os dias cinzentos de Mangópolis trazem uma nostalgia carregada de melancolia a este coração já cansado de tanto amar. Letras de boleros a parte, estou passando por um revival forçado. Arrumando meu quarto neste início de ano, encontrei uma caixa repleta de recordações de amores do passado. São cartões, cartas, bilhetinhos, embalagens de presente com dedicatória, pétalas de flores murchas, ameaças de morte, enfim, entulho (mofado) amoroso que não consigo me desfazer. Vez por outra limpo tudo, troco de caixa e deixo essas lembranças remotas em stand by pra meu conforto sentimental.
Me deparei com uma carta escrita em 2009 que despertou o momento minha-vida-passou-diante-dos-meus-olhos. O cara que a escreveu nunca havia feito isto antes, e talvez tenha sido a única e última vez. Eu também nunca lhe enderecei nenhum manuscrito, mas no fim, acabo redigindo coisas sem sentido, saídas de uma mente atormentada por um amor falido.
Fui casada com ele por quase três anos da minha vida. Tivemos um filho lindo. Uma história conturbada repleta de altos e baixos. Meu temperamento instável e o mal humor crônico dele nos transformaram numa bomba que explodia a cada demonstração de poder do território. "Dois espécimes Alfa se encontraram e mal sabiam que o amor entre eles seria impossível", já dizia um sábio porto-riquenho. Nós só não contávamos com o inesplicável: uma atração, inicialmente sexual, muito forte. Com o tempo fui percebendo que a volúpia já não era mais tão importante na decisão de continuar com aquele martírio. Era por causa do filho, argumentava comigo mesma. Não... Era algo entre ele e eu que estava longe de ser explicado ou até mesmo entendido.
Passado quase um ano desde a derradeira separação, olho pra trás e vejo o quanto foi imatura nossa relação. Apesar de ser meu segundo casamento, essa foi a primeira vez que eu amei de verdade, que eu passei pela experiência da maternidade e onde as lembranças que eu tenho não estão na caixa do entulho amoroso, e sim, incrustadas na minha alma. Não tenho mais apenas meu companheiro de noites em claro, de lanches na praça, de rodada de filmes no final de semana, de pizza com cerveja ou de conversas pop casuais. Descobri que aquela atração, aquela insistente e pungente atração, nada mais era do que o medo de perder o único e melhor amigo que eu tive.
Sinto falta da sinceridade com a qual ele me dizia as verdades da vida que nenhum amigo me ousou falar. Ele era meu termômetro, minha bússola, meu porto-seguro... Aprendi nesse curto período a ligar o foda-se ao invés de saber o que o Cabelinho pensa a respeito. No final das contas não passo de uma garota assustada aprendendo a ser mulher, nesse mundão de mel dels. Nunca esquecendo que apesar das sandices, sou praticamente inofensiva. Sigo balbuciando cancionetas alegres pra disfarçar o semblente de apatia crônico. Qual a resposta pra tudo? 42 baby, 42.







