28.1.10

Praticamente Inofensiva

Os dias cinzentos de Mangópolis trazem uma nostalgia carregada de melancolia a este coração já cansado de tanto amar. Letras de boleros a parte, estou passando por um revival forçado. Arrumando meu quarto neste início de ano, encontrei uma caixa repleta de recordações de amores do passado. São cartões, cartas, bilhetinhos, embalagens de presente com dedicatória, pétalas de flores murchas, ameaças de morte, enfim, entulho (mofado) amoroso que não consigo me desfazer. Vez por outra limpo tudo, troco de caixa e deixo essas lembranças remotas em stand by pra meu conforto sentimental.
Me deparei com uma carta escrita em 2009 que despertou o momento minha-vida-passou-diante-dos-meus-olhos. O cara que a escreveu nunca havia feito isto antes, e talvez tenha sido a única e última vez. Eu também nunca lhe enderecei nenhum manuscrito, mas no fim, acabo redigindo coisas sem sentido, saídas de uma mente atormentada por um amor falido.
Fui casada com ele por quase três anos da minha vida. Tivemos um filho lindo. Uma história conturbada repleta de altos e baixos. Meu temperamento instável e o mal humor crônico dele nos transformaram numa bomba que explodia a cada demonstração de poder do território. "Dois espécimes Alfa se encontraram e mal sabiam que o amor entre eles seria impossível", já dizia um sábio porto-riquenho. Nós só não contávamos com o inesplicável: uma atração, inicialmente sexual, muito forte. Com o tempo fui percebendo que a volúpia já não era mais tão importante na decisão de continuar com aquele martírio. Era por causa do filho, argumentava comigo mesma. Não... Era algo entre ele e eu que estava longe de ser explicado ou até mesmo entendido.
Passado quase um ano desde a derradeira separação, olho pra trás e vejo o quanto foi imatura nossa relação. Apesar de ser meu segundo casamento, essa foi a primeira vez que eu amei de verdade, que eu passei pela experiência da maternidade e onde as lembranças que eu tenho não estão na caixa do entulho amoroso, e sim, incrustadas na minha alma. Não tenho mais apenas meu companheiro de noites em claro, de lanches na praça, de rodada de filmes no final de semana, de pizza com cerveja ou de conversas pop casuais. Descobri que aquela atração, aquela insistente e pungente atração, nada mais era do que o medo de perder o único e melhor amigo que eu tive.
Sinto falta da sinceridade com a qual ele me dizia as verdades da vida que nenhum amigo me ousou falar. Ele era meu termômetro, minha bússola, meu porto-seguro... Aprendi nesse curto período a ligar o foda-se ao invés de saber o que o Cabelinho pensa a respeito. No final das contas não passo de uma garota assustada aprendendo a ser mulher, nesse mundão de mel dels. Nunca esquecendo que apesar das sandices, sou praticamente inofensiva. Sigo balbuciando cancionetas alegres pra disfarçar o semblente de apatia crônico. Qual a resposta pra tudo? 42 baby, 42.

26.12.09

Mais uma vez, adeus!

Beijos entre lágrimas, despedida sofrida. Andar solitário no ar sereno da noite. A lua me acompanha no trajeto. Cidade pacata, poucas pessoas nas ruas. Respiro fundo e sigo adiante. Atravesso uma praça. Me detenho por um instante sobre a ponte de madeira, observando as garças no lago. Meu pensamento alça vôo. Trechos de músics pairam na minha mente. As mais piegas possíveis. Começou a fase de autopiedade, penso. Recobro a consciência e volto a minha peregrinação ao encontro de uma razão convincente para respirar. Andar sem rumo sempre me ajudou a esquecer um pouco as mazelas da vida.

Observo os rostos pelo caminho. São semblantes diferentes aparentemente, mas os olhos... Todos os olhos me parecem perdidos. Sempre buscando algo. Talvez todos estejamos juntos na mesma busca desenfreada por nós mesmos.

Após uma hora de andança, as imagens do ocorrido não param de reprisar na minha memória. Memória. A minha é péssima e costumo gostar disso. As lembranças desagradáveis de hoje provavelmente irão desaparecer antes da próxima besteira acontecer.

A vida, na verdade, não passa de uma longa e dolorosa caminhada rumo ao desconhecido. Na minha busca, idealizo paz interior e a companhia de um gentil cavalheiro que me dirá: "Venha comigo se quiser viver." Quando esse dia chegar, minha jornada terá mais sentido.

Uma chuva fina cai e apresso o passo. Aceno para um táxi. Ao entrar, contemplo as gotas escorrendo no vidro do carro e "Have you ever seen the rain" começa a tocar no rádio. Será um sinal? Ligo para o cara que surge na minha mente quando ouço essa música. Não atende. Já passa da meia noite, talvez estivesse dormindo. Acho que o sinal estava fraco, penso. Sorrio. Que tonta eu sou! Com um sorriso bobo na cara sigo viagem cantarolando: "I want to know, have you ever seen the rain? Comin' down a glorious day."

5.12.09

A Little Girl

Ultimamente ando um pouco melancólica. Amores fulgazes deixaram a garotinha que habita meu inconsciente chorando a cada despedida. Talvez eu precise acreditar novamente nas cantigas de roda, na chuva ao entardecer, no passeio de mãos dadas, no beijo na testa, na despedida adiada, no telefonema na madrugada, na música assoviada, na promessa cumprida.

Norah Jones canta "Seven Years" e de repente tudo parece se encaixar.

I'm just a little girl with nothing wrong
and she's all alone...


29.11.09

O Homem-cilada

Durante um surto psicótico em meio a uma TPM épica, me inscrevi em alguns sites de relacionamentos e redes sociais. Sem saber o que esperar desse rompante desenfreado de carência afetiva, me deparo com o primeiro pretendente. Após algumas horas de conversa no chat, marcamos um encontro em menos de 24 horas. A ingestão excessiva de chocolate me deixou perigosamente ansiosa. Nem preciso dizer que foi um fiasco. Ele não era nada daquilo que dizia ser no seu perfil, inclusive a foto. Depois dele foram mais dois, sendo que o último era perfeito demais, ou seja, deve haver algo de errado com o rapaz.

Lembrando das matérias de revistas femininas que li e tirei algum proveito (ou não), tem essa da revista CLAUDIA de novembro de 2007, de onde tirei o título da postagem. Constatei o que já sabia: os homens não passam de uns calhordas bebês chorões. O texto ficou marcado em minha memória por ser assustadoramente realista.

A seguir alguns trechos da matéria da jornalista Cláudia Ramos com ilustrações de Caco Galhardo. A íntegra você encontra aqui, com alguns depoimentos e comentários de especialistas.


***

Em tempos de relacionamentos complicados, parece um sonho deparar com um homem que faz de tudo para conquistar você e demonstra conhecer a alma feminina como poucos. Se estiver fragilizada, então, melhor (para ele): é a presa perfeita. Mas esse conto de fadas não costuma ter um final feliz.

O Homem Ternura
Ele é "fofo", aparentemente carente, precisando de colo. Vem com aquela conversa de namoros sofridos ou ex-mulheres vingativas. Se diz um romântico à procura de um grande amor, que não teve sorte nos relacionamentos anteriores. Apresenta a nova "vítima" à família e aos amigos, fazendo-a sentir-se acolhida e segura.


O Homem Perfeito
É um sujeito que, de cara, demonstra ter todas as qualidades valorizadas pelas mulheres. É gentil, elegante, dá presentes. Geralmente, ele se declara logo na primeira semana, se expressa com facilidade, olha nos seus olhos e faz comentários que toda mulher gosta de ouvir, como elogiar o novo corte de cabelo. Eles têm sempre na ponta da língua frases do tipo: 'Você é a mulher da minha vida'." Parecem ter a ideia fixa da conquista, mas quando ela acontece... se mandam.

O Homem Sincero
Esse faz o gênero franco. Deixa claro que não quer nada sério, mas garante que tamanha sinceridade é em respeito aos sentimentos da mulher. Ele é direto: não faz declarações nem perde tempo com presentinhos e bilhetes românticos. Vai logo ao ponto: quer levá-la para a cama. Obviamente, não diz isso com palavras, mas deixa claro por sua maneira de agir. Tudo é muito rápido: ele arma o cenário de sedução e dá o bote, porque quer estar livre e pronto para outra.

O Homem Vampiro
O homem-vampiro suga a mulher. Muitos são possessivos e ciumentos. É do tipo nervoso, agitado, inseguro, sempre com medo de ser traído. Gosta de vigiar todos os passos da pessoa com quem está saindo e tenta isolá-la do contato com os amigos e a família. Vive reclamando da vida. Quase nunca tem dinheiro, mas não faltam boas desculpas para pedir para você pagar a conta.

15.11.09

Eu...

Eu nunca...

aprendi a tocar violão;
pedi carona a um desconhecido;
escrevi uma carta de amor;
dancei tango;
fui no trem fantasma;
apareci na televisão;
paguei uma promessa;
esqueço um rosto conhecido;
vi um ET;
dancei quadrilha na escola;
usei cílios postiços;
dirigi;
dancei Triller;
tive um amigo gay;
pago os 10%.


Eu sempre...

me engano com a índole das pessoas;
me embriago na terceira latinha;
me deslumbro com a lua cheia;
rôo as unhas;
ouço uma música que gosto dezenas de vezes;
faço conta errada;
assisto dois ou mais canais ao mesmo tempo;
acordo com o rosto amassado;
tenho ressaca;
assisto filmes de animação;
acordo durante a noite para beber água;
e para ir ao banheiro;
me apaixono pelos caras errados;
canto no chuveiro;
choro em finais felizes;
visto qualquer coisa para ir na padaria;
seguro o controle remoto.

25.10.09

Quinquilharias Amorosas

Após algum tempo de inércia criativa encorajo-me a escrever estas linhas. A vontade de despejar baboseiras neste lixão amoroso sempre existe, mas admito produzir melhor dopada de melancolia. Não escrevo com intenções, apenas escrevo. Apesar de sempre existir algum motivo pra escrever. Dos mais profundos e íntimos até os mais banais como este aqui (ainda não descobri qual é). No início era para impressionar um cara, depois, este espaço virou uma espécie de depósito de pensamentos.

Nos últimos dias experimentei algumas sensações ruins. Mas nada que me fizesse encarar uma maratona de sorvete diante do filme mais romântico que passasse pela frente. Estou falando de garotos. Sim. Anos de decepções, frustrações estão me fazendo ficar insensível (ou pelo menos é assim que me sinto agora). Nem uma lágrima, nem um pensamento distante ou arrependimento tardio. Sensações completamente opostas as que surgiam em mim num momento de tensão emocional.

Acredito que não sou um ser superior que venceu todas as barreiras de sentimentalismos carnais. Estou longe disso. O fato é que aprendi a mediar os opostos em mim. Saber dizer não quando meu corpo e tudo mais dizem sim. Sei que esse suposto controle pode ir ralo abaixo por causa de um barbudo qualquer. O importante é saber que há um copo com conteúdo etílico no bar mais próximo e cancionetas bem humoradas a embalar uma rabugice crônica. Por algum motivo sórdido isso me tranquiliza.

26.9.09

A Garota

E num inferninho de Mangópolis...

Uma garota de cabelos loiros, liso, pele branca, roupa justa e um salto alto aparentemente muito desconfortável, segue meu olhar por toda a noite. Vou ao banheiro passar um batom pra disfarçar uma certa palidez crônica, quando a gorota se aproxima de mim com a volúpia à flor da pele:

- Ei garota, quer conversar?
- Hã? Não.
- Você não gosta de meninas?
- Sim, gosto.
- Você não me achou bonita, atraente?
- Você é linda, sem dúvida.
- Mas então qual é o problema?
- Escuta, não tem problema algum... Sabe... Não é você quem eu quero. Me desculpe.

A linda garota se vai e deixa seu perfume no ar por alguns instantes. Retorno ao encontro do meu gentil cavalheiro que me questiona sobre a garota. Digo que foi um engano, ela procurava por um outro alguém. Desconverso e retorno pra mais uma celebração sem sentido. Aprendi a fazer de conta que me divirto nesses lugares.

No caminho de volta pra casa, ainda um pouco tonta, me recosto no banco do carro e peço pra deixar a janela aberta. O vento no rosto me faz lembrar do passado. De uma outra festa, com uma outra garota... A garota da cidade das castanhas. Incrível como ela ainda habita meus pensamentos, meus sentidos, minha alma. E num lampejo, minha memória começa a cantar:

Gostei do seu charme e do seu groove
Gostei do jeito como rola com você
Gostei do seu papo e do seu perfume
Gostei do jeito como eu rolo com você

19.9.09

Advinha quem veio para o almoço?

Hoje depois de umas três semanas, revi meu pai. Recebi sua visita em casa. Eram dez da manhã, acabara de acordar e ouvi sua voz circulando pela casa. Uma relação razoavelmente amigável entre meus pais, separados, permite esse tipo de experiência. Desci. Sem muita intimidade o cumprimento com um beijo desajeitado no rosto e ele devolve o afago com outro mais sem jeito ainda. Durante toda minha vida não me recordo de ter uma relação mais descontraída com ele. A distância, devido a uma certa omissão paterna (mágoa enrustida, eu sei), contribuiu muito. Ouço muito amigos e familiares falarem do pai com admiração, com boas lembranças de infância e em alguns casos até um certo temor. Mas comigo... Eu forço a memória e surgem apenas lembranças vagas de períodos aleatórios. Um certo vazio sentimental ao simples fato de mencionar seu nome. Posso estar sendo um pouco exagerada (tudo bem, sou exagerada), porém, esses momentos que não me recordo, provavelmente não os vivi e consequentemente, não os senti. Na maioria das vezes, me vejo sentada no pátio da minha velha casa, esperando um alguém que não veio me buscar. Minhas primeiras impressões sobre os homens! É... Essas experiências me acompanharam durante toda minha vida amorosa sem eu perceber. Nestes vinte e seis anos de vida pude perceber as diferentes maneiras de as pessoas encararem seus fantasmas. A minha é simplesmente cantarolar cancionetas alegres e esperar sentada o dia de amanhã!

10.9.09

Resolvi falar de amor só por você

Pensar que nossos problemas são únicos nos torna sucetíveis a mais desgraça ainda. Achar que esse sofrimento é grande o torna monstruoso. Encarar os fatos com autopiedade é não ter amor-próprio. E falta de confiança, não é nada sexy. Eu repito: Vai passar sim. A dor vai passar e restarão apenas lembranças da época em que o nosso velho e conhecido amigo chamado amor, esteve presente em nossas vidas. Não veja o tempo passar, drible-o com todas as suas forças. Engane o dia, compense vivendo sob a luz da lua. Ela é a melhor confidente que um sagitariano pode ter. E o mais importante, pare e pense se as pessoas felizem insistem no mesmo erro várias e várias vezes. No final das contas, o sofrimento é que faz a roda do mundo girar. As poesias mais lindas, as músicas mais ouvidas, os textos mais interessantes, na sua maioria, são de corações partidos. Essas lágrimas sempre irão cair, por este ou por outro, é você quem escolhe.

9.9.09

Ele



(Ouves os risos?)

8.9.09

Que???

Hoje, um alguém me pergunta sem um motivo aparente, o que eu achava de mim mesma. De susto, respondi ser aquela sensação escrota de inquietação antes de uma grande apresentação em público. "Ai que cruel com você mesma!", esse alguém exclama, horrorizado com tamanha sinceridade (ou autoflagelação). "Que pergunta!", digo. Talvez o que eu realmente ache de mim não é necessariamente aquilo o que eu gostaria de ser. Acredito muito que a coerência e a linealidade me ajudam a manter uma certa sanidade. Não sou o último biscoito do pacote, nem o primeiro, entende? Não sou 8 e nem 80. Odeio admitir mas, estou na média. Agora, saber ao certo qual parâmetro estamos nos baseando, não sei precisar. Só acho que o excepcional não faz parte de mim.

6.9.09

O cowboy

Flores amarelas na segunda-feira
Declarações no cyber espaço na terça-feira
Carta social na quarta-feira
Carro som na quinta-feira
Bombons e balões(!) na sexta-feira
Jantar romântico no sábado
E no domingo, o cowboy, ele cantou assim pra mim:

Sentado à noite na porta da rua
Eu sou menino
Sentada comigo na porta da rua
Ela é menina
Ah! Deixa pra lá meu amor
Vem comigo e esquece
Este drama ou o que for
Sem sentido
Ama não ama se ama me chama
Que eu vou
Ah! Hoje em dia tudo mudou
Deixa disso
Não guarde pra si o que é meu
Vem comigo
Beijando, voando, abraçando a menina
Eu sou menino
Sentada comigo na porta da rua
Ela é menina
Quem tem medo de brincar de amor?
Mutantes


P.s.: As canções de amor, as mais lindas canções de amor são as mais bregas.

2.9.09

Você vem?

13.8.09

Dois anos


Por mais um ano superei momentos difíceis ao lado dele. As alegrias vieram como numa enchurrada descendo uma enorme montanha. Os carinhos, beijos e afagos. Não me imagino vivendo sem eles. Despertar pela manhã com um beijo suave. Ele sempre acorda antes de mim! Chorar uma semana inteira vendo-o partir pela manhã. A distância ainda me dói, admito, aprendi a não demonstrá-la mais. Não me importo em comer por último na hora do almoço. Ele vem em primeiro lugar na minha vida, sempre. Ele é o homem que... que me dá motivos para continuar vivendo. Depois dele, vivo intensamente. Vivi um momento de glória quando o ouvi dizer "amo mamãe". Hoje, fazem dois anos que ele chegou para desconsertar o meu mundo e desde então os meu dias passaram a ter cheiro de tutti-frutti e gosto de chocolate. Seis letrinhas que resumem o que sou: Gregor.

1.7.09

Ele veio

Sim, ele veio. Está aqui. Continua por perto. Disse que não vai mais embora. Sorri e repete que não pretende ir embora. Sorrio também. Pergunta-me se gosto de música Country (não sei se é assim que se escreve!). Faço uma cara estranha, como quem está chupando um limão. Ele me pergunta se o que fizera seria um não. Respondi positivamente. Ele então me diz que gosta de meus "rockinhos dançantes". "Isso é o início de algum problema?", pergunto. Ele responde que não. "Onde já se viu um súdito contestar sua rainha?", ele brinca (piada interna). Sorrisos. Acho que encontrei um homem consciente da sua posição no Reino Animal. Um Macho Beta acaba de encontrar sua Fêmea Alfa.